filmes
A inteligência artificial fora de controle

Blade Runner (1982) anuncia um futuro escuro, catastrófico, capitalista, com desemprego, marginalização, diferenças sociais, etc. Sim, uma crítica ao presente, com suas tendências socioeconômicas, e também ao desenvolvimento técnico-científico, completamente desarticulado de qualquer tentativa de resolução/superação das mazelas sociais.

Um chip, a razão pragmática operando através da ciência "desideologizada", seria capaz de oferecer um passado  (uma "memória implantada") àqueles replicantes, seres de laboratório, escravos do futuro. O protagonista do filme, policial desempregado, é requisitado para os seus serviços de "capitão do mato", por suas habilidades na captura de replicantes rebeldes, que por mais que fossem gerados no ventre da santa tecnologia "avançada", por corporações capitalistas poderosíssimas, ainda apresentavam "falhas", atitudes não planejadas ou previstas. E assim como o saber escravagista do passado não dava conta de todas as manifestações das coisas que trabalhavam, o saber escravagista do futuro demonstra as mesmas limitações.

Aqueles seres, em suas curtas vidas, adquiriam/desenvolviam experiências, sensações, história, fosse nos pesados trabalhos das fábricas, ou no convívio doméstico com seus senhores. Suas memórias implantadas, contruídas pelos doutos cientistas, comprimidas naqueles incríveis chips, os preparava para determinadas situações que fossem algo previsíveis. Os níveis de memória variavam, conforme fosse a função que tivesse de ser cumprida pelo replicante. Porém, era bem possível que a memória embutida se chocasse com a história do replicante; que o passado construído se chocasse com o presente vivido; a razão com a vida.

Ou seja: mesmo a curta vida daqueles escravos não-humanos já proporcionava sérios limites para a efetivação daquelas memórias embutidas nos chips. O filme pode ser visto como a vitória da História e da vida sobre a ciência e uma pseudo-memória. A replicante, por mais detestável e asquerosa que o nome dado à sua existência pudesse sugerir, acaba desenvolvendo belos sentimentos humanos pelo capitão do mato, que também repensa no seu íntimo os preconceitos intransponíveis que antes nutria.

Salvação para a escrava que opta pelo caminho do amor e da colaboração. Derrota e eliminação para os escravos que optam pelo caminho da rebelião e da libertação. Ideologia pouca é bobagem... Porém um fantástico filme! (Rodrigo O. Fonseca)

Versão para impressão:
 
 
Leia também:
O agiota humanizado
Dois atentados sem respostas
'Westworld', o pai de 'Jurassic Park'
'O Mercador de Veneza' terá mais uma sessão
'O Abraço Partido' faz elegia à pluralidade
Retrato da guerra colonial
Entre o retorno à tradição e a opção da fuga.
Papo regado a cafeína e nicotina
'Tempestade de Verão' prima pela fotografia e sensibilidade
A expectativa de 'The Edukators'
Mergulho aterrorizante no universo afrikaaner
Sutil Havana
Metallica no divã
Guerra sem sensacionalismo
'Sem precedentes' destrincha a eleição americana
Quase uma 'Cidade dos Homens' de Johannesburgo
Viagens aos tempos da TV em preto e branco
Salvador Allende e Olga Benario
Existe vida após o erro?
O sensível 'Whisky'
Uma narrativa contundente sobre a realidade do apartheid
Os Sonhadores
As animações do Festival
Lucrecia Martel apresenta 'Santa Menina'
Ela voltou
Jornada da Alma
Baboussia
Um noir existencialista
Pornô Caseiro à la Ingmar Bergman
Antes do Pôr-do-Sol
Gael Bernal brilha em filme de Pedro Almodóvar
Central Al Jazeera
Projeto restaura e relança 'O País de São Saruê'
Tesouro da Cinemateca
A Face Oculta da Lua
Carmen de Aranda
Código 46: entre o amor e a ética
Em suas mãos, o cinema-verdade
Crimes em Wonderland
Um dia sem mexicanos