Quem ainda acredita na imparcialidade jornalística não deve perder o documentário Central Al Jazeera, que será apresentado no próximo fim de semana no Festival do Rio, como parte da mostra Limites e Fronteiras. E quem já perdeu as ilusões é bom ver como se pode fazer um "jornalismo verdade" assumindo claramente de que lado se está.
Dirigido pela fotógrafa americana criada no Cairo Jehane Noujaim, de 29 anos, o filme recém-finalizado deixa claro por que a maior rede de notícias via satélite do mundo árabe virou alvo - literalmente – dos militares estadunidenses – e conquistou uma ampla audiência internacional. Aos que acusam a Al Jazeera de sensacionalista, por divulgar imagens sangrentas e chocantes de civis feridos em combate, e de tendenciosa, por dar cobertura excessiva a vários grupos fundamentalistas e extremistas, seus profissionais lançam mão do princípio de "ouvir o outro lado", que deveria nortear todo trabalho de imprensa.
"A objetividade é uma miragem", diz uma das editoras da TV, ao ser entrevistada por uma colega dos Estados Unidos que questiona a parcialidade da emissora, criada em 1996, com sede em Catar (país vizinho da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes). A cobertura jornalística é deliberadamente focada nos conflitos do Oriente Médio e a programação privilegia as entrevistas com analistas políticos, reportagens documentais e "debates emocionais" sobre os acontecimentos da atualidade.
"Eu vejo a Al Jazeera como uma mídia educativa, que quer acordar as pessoas que vivem em sociedades muito rígidas", diz o principal diretor da emissora, entrevistado ao longo de todo o filme. Já o Secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, diz que a Al Jazeera mente, mas não explica por que as TVs dos Estados Unidos não mostraram imagens das vítimas dos combates durante várias semanas depois de iniciarem os ataques ao Iraque.
Boa parte do documentário foi gravada no Centro de Comunicação e Mídia montado pelo Exército Americano para os jornalistas que supostamente iriam cobrir a guerra. Em dado momento, o relações públicas militar responsável pelo Centro cobra que a Al Jazeera mostre "o outro lado" dos combates: iraquianos fazendo vítimas. Mas fica sem resposta quando os jornalistas ocidentais perguntam quem tem essas imagens.
A impressão que se tem vendo o filme é a de que o CentCom (ou seria sitcom?) funcionou como um confortável campo de concentração dos profissionais de imprensa: ali "entrincheirados", eles não precisavam se "arriscar" a cobrir os combates. Bastava transmitir ao mundo os briefings, os video-releases e as entrevistas coletivas que deixavam inúmeras perguntas sem respostas. Como lembrou um dos entrevistados por Jehane Noujaim, "a História é contada pelos vencedores". (Sonia Aguiar)
Central Al Jazeera terá duas sessões no próximo sábado, 25, no Centro Cultural da Justiça Federal (14h30 e 20h30), e apenas uma no domingo, no Espaço Unibanco 3, às 18h.