Myrna Silveira Brandão*
Para podermos assumir nossa identidade em todas as suas formas, o cinema é sem dúvida uma das principais ferramentas, e a conscientização para a sua preservação uma das ações mais vitais. Atento a isso, o Festival do Rio, a exemplo de outros festivais mundiais, tem plena consciência da grande importância da preservação e da memória fílmicas. Paralelamente, com a valorização da área em todo o mundo, o mercado audiovisual brasileiro vem igualmente reconhecendo cada vez mais que as imagens em movimento, ao lado do seu valor artístico, trazem também consigo um valor econômico em crescente demanda.
A assertiva tem consonância direta com a necessidade de preservar e trazer de volta ao espectador clássicos do nosso cinema. Um deles terá seu relançamento nesta edição 2004 do festival. Numa realização do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB), em projeto patrocinado pela Petrobras Distribuidora e incentivado pelo MinC, O país de são Saruê, de Vladimir Carvalho, está de volta às telas.
Restaurado em um processo que levou dois anos, o filme havia sido rodado em 16mm e posteriormente ampliado para 35mm. Com o original de 16mm desaparecido, a restauração foi feita a partir do internegativo de 35mm, realizada nas instalações do Labocine por Francisco Sérgio Moreira e sua equipe, e contando com a participação de Walter Carvalho na marcação de luz..
O País de São Saruê é um dos documentários mais importantes do cinema brasileiro. No momento em que o gênero assume o seu devido lugar de destaque na filmografia brasileira e mundial, o trabalho pioneiro realizado no filme o coloca na situação preconizada como obra imprescindível por todos os órgãos normativos de preservação.
O País de São Saruê focaliza, num trabalho até então inédito, a região sertaneja do Rio do Peixe, no Nordeste brasileiro. Inspirado no título de um cordel do conhecido autor paraibano Manoel Camilo dos Santos, é um filme denso sobre a relação do homem e a terra. As imagens realistas das dificuldades de sobrevivência no sertão surgem de modo particularmente forte na tela. Finalizado em 1971, ficou por nove anos preso pelos órgãos de censura e foi liberado apenas em 1979. Se na filmografia brasileira há muito adquiriu o valor de um clássico, para a história da nossa cultura o seu valor é inestimável.
* Presidente do CPCB, texto originalmente escrito para o Catálogo do Festival do Rio 2004