Pedro Butcher*
Há pouco mais de um ano, militares norte-americanos, assustados com as incontroláveis explosões no Iraque ocupado, promoveram uma exibição privada de A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, nas dependências do Pentágono. O fato foi noticiado pelo jornal The New York Times e amplamente lembrado na ocasião do relançamento do filme em cópia restaurada, nos Estados Unidos, no princípio deste ano. Eis, portanto, a prova irrefutável da atualidade deste filme de 1966. Quase 40 anos depois de sua realização, A Batalha de Argel permanece como um vivo marco histórico que descreve o nascimento de um novo tipo de guerra.
Em 1961, o coronel francês Roger Trinquier lançou um livro aterrorizante, considerado peça-chave para o entendimento dos conflitos contemporâneos. Em "La guerre moderne", Trinquier defendia o uso da tortura e da humilhação como principal forma de combate às táticas não convencionais, próximas da guerrilha e do terrorismo, que afloraram sobretudo durante as lutas de independência coloniais tardias na África, nos anos 1960. Entre tais lutas, a "batalha em Argel" foi um dos exemplos máximos.
O surgimento desse tipo de combate decorreu de um profundo desequilíbrio de forças alimentado por radicalismos políticos. Levantamentos recentes dão conta de que "La guerre moderne" foi amplamente estudado por militares americanos e franceses, e foi aplicado no "treinamento" dos militares para os golpes que assolaram quase todos os países do continente latino-americano em meados da década de 1960. Era a Guerra fria explodindo em sua forma mais cruel nos países do Terceiro Mundo.
Todas essas questões são apresentadas, em sua essência, em A Batalha de Argel, que o Festival do Rio exibe em cópia restaurada. O mestre italiano Gillo Pontecorvo , nascido na Itália em 1919 (e neste mesmo festival homenageado em 2000), descreve em detalhes como agiam os dois lados desse conflito marcado, de um lado, pelo terror, e de outro, pela tortura.
Pontecorvo marca a história do cinema político ao construir uma narrativa de tirar o fôlego, sob a forma de uma escalada de suspense capaz de envolver e emocionar o espectador sem abandonar, em momento algum, a reflexão.
O filme terá sessão única na segunda-feira, 27, às 18h30, no Espaço Unibanco 1.
*Texto originalmente escrito para o Catálogo do Festival do Rio 2004