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A Face Oculta da Lua

O longa-metragem canadense A Face Oculta da Lua ilustra com perfeição uma das lições máximas que Sir Alfred Hitchcock nos deixou: "O que importa num filme não é a história, o assunto ou o tema, mas sim a narrativa, a forma que a história é contada". Com um conteúdo razoavelmente banal e cotidiano, porém com uma montagem sedutora, onírica e fora do convencionalismo do cinema clássico narrativo, Robert Lepage fez um belo filme.

Phillipe trabalha como operador de telemarketing e está prestes a defender sua tese de doutorado em Filosofia da Ciência, onde afirma que o principal sentimento que alimentou a corrida espacial dos anos 1960 e 70 foi o narcisismo. Aliás, Phillipe é obcecado por viagens espaciais e por astronomia desde criança. Na verdade os astros são uma forma de fuga a que ele recorre quando se defronta com seus problemas pessoais. Phillipe enfrenta sérias dificuldades de relacionamento com seu irmão caçula, André - um bem-sucedido apresentador de meteorologia na TV, gay assumido e prático por natureza. Os dois acabaram de perder a mãe e parece que só Phillipe sofre com essa perda.

Robert Lepage (que além de diretor do filme interpreta os dois irmãos) usa os conflitos entre EUA e URSS na corrida espacial durante a Guerra Fria - objeto de fascínio do protagonista - como metáfora para a difícil relação entre os irmãos. Enquanto André é frio, prático e rico, Phillipe é emotivo, apegado ao passado e profissionalmente instável. Um é praticamente o oposto do outro e quase nunca concordam sobre nada. Porém quando um cosmonauta russo lê a tese de Phillipe e o convida para uma palestra em Moscou, ele vê uma chance de dar a volta por cima e mostrar ao irmão que também pode alcançar o sucesso.

Tudo isso é mostrado através de uma montagem bastante original, que transforma máquinas de lavar em cápsulas espaciais e faz outras associações inusitadas e bastante divertidas. Aliás, o filme tem um humor crítico, mordaz e inteligente. Tudo isso deixa claro os sensíveis limites entre o cinema canadense e o cinema feito nos EUA. Além da montagem de Phillipe Gagnon, a bela trilha sonora de Benoit Jutras merece atenção.

A Face Oculta da Lua é adaptação de uma peça do próprio Robert Lepage, um dos grandes nomes do teatro canadense da atualidade. Entre seus espetáculos mais famosos e elogiados estão "Polygragh, Needles and Opium" (encenado no Brasil em 1998) e "Os Sete Afluentes do Rio Ota" (também montado aqui). Lepage estreou no cinema em 1994, com Mistérios e Paixões, selecionado para o Festival de Cannes. A Face Oculta da Lua é seu quinto longa-metragem e participou da mostra Panorama do Festival de Berlim de 2004 (Oswaldo Lopes Jr).

O filme selecionado para a mostra Panorama do Cinema Mundial estréia no Festival na próxima sexta-feira, 24, às 14h, no Estação Ipanema e terá mais duas sessões no fim-de-semana.

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