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Em suas mãos, o cinema-verdade

Neste seu segundo longa-metragem (o primeiro foi Minor Mishaps, de 2002, premiado no Festival de Berlim), Annette Olesen põe frente a frente duas mulheres em situações opostas: uma jovem protestante que carrega a incerteza do futuro de seu filho na barriga, e uma detenta pacífica e solidária, que tenta se livrar do seu terrível passado, registrado friamente nos arquivos de um computador.

Sem aderir ao misticismo metafísico do mestre Carl Theodor Dreyer (1889-1968), Olesen testa as questões da justiça divina e do perdão entre os homens no cruzamento destas duas histórias de vida. O que está em nossas mãos? O que não está? E o que causa mais danos: uma mente que não crê ou um coração que não perdoa? Mais que um filme para ser visto, é para ser sentido, com toda a força de suas imagens e ousadia de roteiro.

Recém chegada a um tranqüilo (e quase vazio) presídio feminino dinamarquês, a novata pastora Anna encontra Kate, detenta que pouco fala mas de quem se suspeita possuir dons paranormais. Kate ajuda outras presas a se "limparem" do vício das drogas, apenas usando as mãos. Um dia, faz a surpreendente revelação da gravidez de Anna, coisa que esta há muito tempo tentava junto ao marido e não tinha sucesso. Então duas tramas passam a se desenrolar paralelamente: a expectativa pelo nascimento do bebê da pastora, e a vida de Kate na prisão, entre as ameaças da traficante local e o amor de um simpático carcereiro.

Fiel aos preceitos do movimento Dogma 95 - conhecido pelos filmes Festa de Família (Vinterberg, 1998) e Os Idiotas (Lars Von Trier, 1998) -, Em suas mãos atravessa os temas da justiça divina e até do sobrenatural. Mas é tudo verdade, emoção sem maquiagem, drama sem sobre-som, câmera sem trucagem - na mão mesmo - com alguns tropeços e zoom ligeiro. Cinema-verdade numa prisão que, pelo menos comparada às nossas, parece de mentirinha.

O Dogma 95, é possivelmente o movimento mais revolucionário no cinema destes últimos tempos -- senão o único. Buscando um ultra-realismo na realização dos filmes, o resultado pode ser percebido na força adquirida pela interpretação dos atores e na vivacidade e até nervosismo das situações de conflito. A valorização do trabalho de expressão dos atores é uma tradição do cinema dinamarquês desde Carl Theodor Dreyer, cujo filme mais celebrado pela crítica é A Paixão de Joana d'Ark (1928), a versão com o maior número de closes e, talvez, também a mais crítica em relação às perseguições e à intolerância religiosa (Rodrigo O. Fonseca).

Em suas mãos, selecionado para a mostra Panorama, estréia nesta sexta-feira, 24, no Estação Botafogo 1, às 21h30, e terá mais três sessões até terça, 28.

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