O Festival do Rio tem mostrado ao público um extraordinário e variado leque de documentários do panorama cinematográfico mundial, desde os filmes-denúncia de Peter Davis até o atualíssimo Central Al Jazeera e o revelador Salvador Allende. Entre tantas boas opções, o Festival apresenta dois filmes que têm o terrorismo como tema central, o argentino 18 J e o russo Descrença. Apesar de possuírem formatos bem distintos, ambos falam sobre recentes atentados a civis em grandes capitais, nunca esclarecidos pelas autoridades e cercados de suspeitas.
18 J é um filme de episódios, onde dez cineastas da atual safra do cinema argentino expõem suas visões sobre o terrível atentado de 18 de julho de 1994 (por isso o título do filme). Na ocasião, um carro-bomba explodiu em frente ao prédio da Associação Mutual Israel-Argentina (AMIA), matando 85 pessoas e ferindo cerca de 300 no coração de Buenos Aires.
São dez curtas-metragens distintos – na mesma linha de 11’09”01, sobre o atentado ao World Trade Center – com as mais diversas propostas estéticas. Desde um balé (Lacrimosa, de Maurício Wainrot) até um filme experimental sem palavras (de Adrian Caetano), passando por algumas ficções bastante interessantes. Em A Ira de Deus, de Marcelo Schapces, um adolescente judeu se recusa a fazer o bar mitzvah, com conseqüências irônicas. Daniel Burman (diretor de O Abraço Partido, exibido no Festival) mostra como o atentado afetou a vida dos comerciantes e moradores da região. Alberto Lecchi conta a história de uma mãe que mora numa cidadezinha do interior da Argentina e tenta contactar o filho em Buenos Aires quando vê o atentado na TV. Surpresa, de Adrián Suar, faz um contraste entre a felicidade e a tragédia, numa das histórias mais emocionantes do longa.
Para quem não sabe nada sobre o caso, o monólogo Vergonha, de Alejandro Doria, com Susú Pecoraro, é bastante esclarecedor. Inclusive deixa claro que, do serviço secreto argentino ao ex-presidente Menem, várias autoridades tentaram abafar o caso e camuflar a responsabilidade da tragédia. Além disso, o filme expõe a ponta do iceberg dos preconceitos raciais na Argentina, sutilmente trazendo à tona o passado hitlerista do país. Os principais objetivos de 18 J são preservar a memória do atentado e repudiar a cumplicidade do poder político no seu encobrimento e a indiferença da sociedade.
Descrença trata sobre o numerologicamente perverso atentado à bomba num prédio de apartamentos em Moscou, no dia 9 de setembro de 1999 (9/9/99). O atual primeiro-ministro da Rússia Vladimir Putin – que era diretor do FSB (o serviço secreto russo) pouco antes do atentado – responsabilizou os chechenos pela explosão e isso desencadeou uma pesada represália à Chechênia. O diretor Andrei Nekrasov concentra sua narrativa na história de Tanya e Yelena Morozova, duas irmãs que perderam a mãe na explosão, além do apartamento onde viveram desde a infância. Tanya mora nos EUA e volta à Rússia para reencontrar a irmã Yelena, que morava com a mãe. Através de depoimentos delas e de outras pessoas envolvidas de alguma forma no atentado – repórteres, advogados, sobreviventes, parentes de vítimas, autoridades governamentais, suspeitos chechenos – o filme expõe a fragilidade das “verdades” apregoadas pelo governo russo. Apesar do diretor ter declarado que após o filme ficou com mais perguntas do que antes, Descrença deixa claro que há algo de podre no reino de Putin. As suspeitas de que o próprio FSB foi o responsável pela explosão apenas para justificar o ataque militar à Chechênia são muito fortes.
Esse é exatamente o ponto de convergência entre 18 J e Descrença, a forte suspeita de um envolvimento governamental em ambos os atentados. Mais do que uma simples teoria da conspiração, a quase certeza de que os governos da Argentina e da Rússia têm muita coisa a esconder nos respectivos casos tem ecos orwellianos. Enquanto o governo Menem nunca responsabilizou ninguém pelo atentado ao prédio da AMIA, a turma de Putin apressou-se em jogar a culpa sobre a recém-formada república da Chechênia da mesma forma que o porco Napoleão culpava Bola-de-Neve pelos problemas em Revolução dos Bichos, de George Orwell. Os chechenos sofreram uma punição sem julgamento, assim como os infortúnios da Oceania de “1984” de Orwell sempre recaíam sobre Goldstein. Sem dúvida, dá o que pensar.
Os dois filmes revelam, cada um a seu jeito, que os fatos nem sempre são o que parecem. E mostram que a Argentina e a Rússia têm tantos motivos para chorar seus mortos em atentados terroristas e a questionar seus líderes políticos quanto os Estados Unidos após 11 de setembro de 2001. Descrença e 18 J são, além de grandes filmes, documentos indispensáveis para quem quer conhecer melhor os bastidores do poder no mundo contemporâneo e entender porque pessoas cometem tantas atrocidades com outras pessoas ainda hoje. (Oswaldo Lopes Jr.)
Descrença tem mais duas sessões no Festival: quarta (06/10), às 19h30, no Estação Barra Point 1; quinta (07/10) às 16h, no Espaço Unibanco 3