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Retrato da guerra colonial

A trajetória de Eva, personagem central do romance A Costa dos Murmúrios (da escritora portuguesa Lídia Jorge), é a linha condutora do filme de Margarida Cardoso. Uma adaptação para as telas grandes da boa literatura portuguesa.

A história original é dividida em duas partes. O primeiro capítulo toma boa parte do livro e é dotado de uma narrativa onírica. Sob o título Os Gafanhotos, Lídia Jorge deixa correr solto um fluxo de consciência de sua personagem - uma portuguesa radicada em Moçambique. Ao passar para a segunda parte do romance, que trata das revoluções africanas contra o jugo colonial europeu nos anos 60, o viés histórico vem à tona. E é sobre esta parte da obra que está concentrada a adaptação de Margarida Cardoso.

Em seu filme de estréia nas ficções de longa-metragem, Margarida Cardoso optou por uma história que lhe fosse familiar. Ela saberia muito bem transmitir aos espectadores o que sentia Eva, a jovem portuguesa que de repente se viu estrangeira em um lugar dominado pelo seu país. Ela sai de Portugal recém-casada com um oficial das forças armadas, Luís Galex, um homem que vai se apresentando aos poucos, que embrutece mediante a violência e o despropósito das batalhas coloniais. Eva é um espectro de tudo o que acontece, tem poucas relações com o mundo ao seu redor. Ela quase nunca sai do quarto de hotel e espera encontrar novamente um resquício do primeiro Luís Galex nesse que agora é apenas um homem-cabide para a farda do exército luso.

O filme de Margarida Cardoso usa alguns elementos da literatura, tais como: trechos narrados pela personagem principal e ambigüidade da relação entre Eva e Helena - a mulher do Capitão Forza Leal, que carrega há muito mais tempo o fastio da guerra e a violência nas pequenas cenas do dia a dia. A Costa dos Murmúrios trabalha visualmente para transmitir ao espectador sentidos que pertenciam à literatura. Assim, a diretora usa artifícios de fotografia tais como transformar um filme que é bem claro, no seu começo, em uma peça carregada de drama pelo escurecimento das cenas, ou esmaecimento das cores. No princípio, a promessa de felicidade no casamento; depois a guerra, a ausência de familiaridade no lugar estrangeiro e manchado pelo sangue da chaga imperialista.

A costa dos Murmúrios é um filme de política e de poética; um drama que saiu das páginas e tem, sobretudo, a dignidade de lamentar, do lugar do colonizador, as falhas do seu Estado. (Angélica de Oliveira).

Leia também a entrevista da diretora Margarida Cardoso.

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