O ancião da família Singiswa reclama com jovens que teriam se equivocado numa tradicional receita de ovelha. Justificando-se, eles dizem que apenas seguiram os passos indicados num programa de televisão, no canal "rasta" da África do Sul. Na nova ordem social, os meios de comunicação começam a entrar nas memórias e mistérios transmitidos pelos grupos étnicos tribais. Mas os caminhos, como sempre, tendem a apresentar desvios, buracos e pedras.
Sipho e Gilian são um casal descolado e multirracial de Johannesburgo, e têm um filhinho muito esperto, Kai, que adora andar de skate. Eles resolveram registrar um ritual da tribo Xhosa, no qual Sipho concluirá sua passagem para a maturidade. Quando era adolescente, Sipho foi circuncisado seguindo a tradição de seus antepassados. À época, estava detido na prisão de segurança máxima de Robben Island, como preso político, e o que era para ser feito no mato, teve de ser feito ali mesmo, às escondidas no banheiro. Sipho quer continuar a tradição de sua família, deixando orgulhosos os pais e oferecendo um material gravado no qual o seu filho poderá encontrar algumas respostas.
Chegando em sua cidade natal, onde a família ainda vive, encontra o irmão Vuyo, que por opção própria não quis realizar a circuncisão. Vergonha para a família, Vuyo guarda calado suas dúvidas e inseguranças. Acusado de não dar importância à história, ele responde que não entende o ritual, não sabe por que é preciso ir ao mato para virar homem. Pressionado por Sipho, ele aceita ao menos participar das preparações e assistir ao ritual do irmão. E o que era para ser um registro antropológico vira um drama familiar. Mais. Vira uma questão dicotômica entre as tradições tribais e as direitos constitucionais. "Estamos numa democracia. Agora é um mundo livre!", afirma-se no começo, mas a idéia de forçar o caçula a fazer o ritual é algo que paira no ar o tempo todo.
Descobrimos então que Vuyo é órfão e gay, e guarda sérios ressentimentos dos seus pais adotivos, por achar que eles não lhe contaram toda a verdade sobre o seu processo de adoção. Somando isso ao medo cada vez maior de ser arrastado para o mato - em meio ao clima de festa e euforia em torno do irmão exemplar - Vuyo toma uma medida enérgica.
O propósito antropológico do documentário não é abandonado. Duas ovelhas são mortas, estripadas e preparadas, faz-se um balde de cerveja caseira, homens e mulheres cantam e dançam animadamente. Mas Vuyo é o elemento pertubador desse tempo. E ele nem apresenta reivindicações, além do desejo de conhecer os seus pais biológicos. Ele não é um entusiasta de sua feminilidade, não a usa para justificar sua falta com a tradição. Desperta compaixão e solidariedade por parte da irmã e de Gilian; desperta frustração e desapontamento por parte do pai e de Sipho. Uns acham que foram duros demais com ele. Outros, que foram frouxos - especialmente Sipho.
"Nós criamos você e agora você quer se colocar um rótulo?", lhe pergunta o pai, que não entende ou não quer entender o que é ser gay. Vuyo afirma não ser contra a tradição, mas quer ter o direito de percorrer um outro tempo, quer ir atrás de quem o abandonou com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Mesmo que para isso tenha de abrir mão do amor oferecido pela família Singswa. Vuyo quer encontrar-se nas lacunas de seus sentimentos, coisas que não sabe explicar, para as quais não tem palavras. Tentando acalmar o pai, profundamente abalado e triste, a irmã de Vuyo diz que nem sempre as expectativas se cumprem. São coisas da vida.
E são coisas dos momentos de passagem, como este procurado por Sipho no ritual Xhosa. Antes que o novo esteja estabelecido, antes que ele incorpore positivamente os elementos que herda do passado, há um desconforto e uma inconveniência que aparecem como dados intransponíveis. Que a África do Sul encontre seus próprios caminhos para afirmar-se enquanto povo e também enquanto conjunto mais ou menos harmônico de pequenas nações, com suas idiossincrasias, é tarefa para gerações. Além do mais, tanto heróis felizes como Sipho e tristes como Vuyo, podem significar vetores para a conclusão destas pequenas mas irredutíveis missões assumidas pelos seres e pelos tempos. (Rodrigo O. Fonseca).