Premiado nos festivais internacionais de Toronto e Tóquio, Terra Prometida é uma fabulosa oportunidade para conhecer um lado pouco notado da sociedade sul-africana pós-apartheid. A partir dele, somos devidamente apresentados à lógica e ao ódio colonialista numa distante região agrícola do país.
Uma pequena comunidade de fazendeiros, isolados do mundo (por alergia a ele?) se organiza militarmente para resistir às mudanças em marcha na nova África do Sul. O governo vem tentando comprar terras na região, oferecendo preços muito acima do seu valor real, com o intuito de explorar os lençóis d'água no subsolo. Mas os fazendeiros preferem a seca a um oásis com vizinhos negros; preferem a decadência econômica e uma vida de resignação a qualquer prosperidade e alegria compartilhada com seres que consideram, entre outras coisas, traidores e desalmados. "É, a alegria é coisa para kaffirs e judeus", lamenta-se o patriarca da família Raubenheimer.
Adotando a retórica do nazismo, o líder político e religioso da comunidade afrikaaner, Gerhard Snyman, considera que kaffirs (termo pejorativo para negros, selvagens), judeus e comunistas são todos instrumentos de Satã, a soldo dos Rockefellers e Rothschilds - banqueiros do sistema financeiro internacional.
A trama do filme está na volta de George Neethling à sua terra natal, após 20 anos vividos em Londres. George (interpretado por Nick Boraine) vem cumprir o último desejo da mãe, de ter as cinzas jogadas na fazenda da família, e vender parte da propriedade ao governo. Ele chega ansioso para ver o tio, que ficou esse tempo todo tomando conta da propriedade, mas é forçado a passar alguns dias na casa dos Raubenheimer. Estes, amigos de muitos anos de sua família, insistem para que George fique até o casamento da jovem Carla com Gerhard, grande acontecimento na comunidade.
A seqüência da festa de casamento é um ótimo retrato da atual situação dos colonialistas na nova África do Sul. "Já tivemos tudo. Olhe para nós agora! Vocês chamam isso de vida? O que aconteceu com a gente?"
A busca de suas raízes é experimentada confusamente pelo protagonista. Ele é o tempo todo empurrado para esta questão, e pelos dois lados: Carla lhe diz para ir embora, para sair dali o mais rápido possível, que ele não pertence àquele lugar. Gerhard diz o oposto, acha ótimo ele ter voltado, um afrikaaner disposto a colaborar com a grande causa da comunidade. Outra questão da história, a da falta de água no continente africano, também é abordada por Xenopoulos no seu último filme, Critical Assignment (2004).
Filme para quem gosta de fotografia - algumas delas batidas pelo próprio George -, Terra Prometida consegue atingir resultados plásticos muito distantes da maioria dos filmes comerciais. Merece menção a abertura com os créditos, desafio cada vez maior para diretores que de fato querem chamar a atenção para a sua equipe. (Rodrigo O. Fonseca).