São dez personagens calados, em suas rotinas de silêncio, que passam por uma Havana musicada. O documentário Suíte Havana, de Fernando Pérez, conta, apenas por expressões e atitudes, o cotidiano de dez pessoas que vivem na capital cubana. A cada plano, Pérez, faz uso de um gesto de cada um dos seus escolhidos, ou às vezes de um conjunto de situações em comum entre eles.
No seu primeiro documentário em longa-metragem, Pérez mostra a miscelânea que é a capital de Cuba: muitas “Havanas” em uma só. Rostos desconhecidos, toda a diversidade que cabe àquele lugar serve como o pano de fundo para a cortina de retalhos que o diretor costura com histórias de vidas. E lá se vai uma hora e vinte minutos de filme sem que uma palavra seja dita. Um retrato de situações atravessadas pela trilha sonora composta por Edesio Alejandro e Ernesto Cisneros, um painel de vivências que reflete o país da revolução e sua atual conjuntura.
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Pérez não pretende filmar a Havana já tão conhecida de todos. Não se trata de um panorama turístico e composto pelas referências da política de Fidel. O diretor não está preocupado com o que se vê no seu filme, mas o que se sente. Pérez deixa para o espectador a tarefa de traçar a linha que conduz seu documentário; por vezes é possível conectar o jovem bailarino à vendedora de amendoins, por outras o médico, que só deseja ser ator, com o ferroviário que sonha em ser músico; todos personagens reais que interpretam as próprias vidas.
E eis que Pérez consegue realizar um filme simultaneamente suave e revolucionário. Primeiro por permitir que nada seja falado, para que tudo seja dito. E depois por remover a ficção no fundo do pote em que está o documentário, fazendo com que a carga dramática cresça lentamente, até chegar, enfim, ao momento em que se pode dar voz aos retratados. Então, nos últimos minutos de cada uma das dez trajetórias, os personagens se apresentam. Com nome, idade e sonhos, tudo que Havana e seus habitantes não podem perder. (Angélica de Oliveira).
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