Num passado recente, um jovem militante da luta contra o apartheid é preso, torturado e assassinado pelos agentes do regime. Sua família, de simples pescadores do noroeste da África do Sul, ainda não sabe das condições exatas de sua morte e sente a falta do rapaz como uma ferida aberta. Enviado à universidade, com um futuro promissor pela frente e o suado apoio dos pais, Daniel só foi pego por ter sido dedurado para a polícia por um dos integrantes de sua organização. Terminado o apartheid em 1994, o presidente Mandela decreta a anistia geral, livrando de pena todos os envolvidos em crimes políticos. É o que ocorre com Tertius Coetzee, o policial que capturou e executou Daniel.
E é com Coetzee que entramos no filme - e na pequena e árida Paternoster, cidade onde vive a família de Daniel. Fazendo-se passar por alguém interessado em comprar terras litorâneas, Coetzee se hospeda num pequeno hotel e vai ao túmulo do jovem. Depois, acompanhado de um padre, aparece na casa dos familiares, quando então a trama é detonada: o que um e outro podem fazer diante do já ocorrido e irrecuperável? Como afinal fechar as feridas no peito dos familiares da vítima e na consciência do assassino arrependido?
As câmeras trabalham em planos visuais que mexem o tempo todo com a posição do público. Este, que vinha acompanhando os passos do policial anistiado, agora é "presenteado" com as imagens de dor da família, toda sua tristeza, ódio e sede de justiça. Cada familiar - o pai, a mãe, o irmão mais novo e a irmã - fará um caminho específico entre estes sentimentos, todos eles perfeitamente legítimos e humanos. A questão, porém, é saber se no final pode haver justamente o que nomeia o filme. Caro, problemático, espinhoso. Mas destemidamente procurado por Coetzee. O perdão.
O tom do filme é amarelado, não há cores fortes, estamos repisando fatos passados. Três amigos do jovem assassinado, antigos companheiros da luta anti-apartheid, são informados da (descarada?, provocativa?) presença do policial em Paternoster. Sannie, a irmã de Daniel, pensa em segurar Coetzee na cidade até que os outros cheguem lá para promover uma vingança. Ernest, o irmão mais novo e mais afobado, prestes a fazer a coisa pelas suas próprias mãos, é questionado pelo policial: "Eu fiz a opção errada uma vez, e aqui estou. Você quer fazer o mesmo?"
Descobrimos então que entre os três vingadores da vítima se encontra o delator, aquele que entregou Daniel ao regime. Entre essa confusão de sentimentos, esse painel de perspectivas, essa dificuldade imensa de perdoar ao invés de punir, o público é convidado, ou, melhor dizendo, é jogado.
Filme bonito sobre uma situação complicada, O Perdão vem para provar que o passado de crimes do apartheid não é nada fácil de ser superado. Suas feridas são profundas, ainda estão abertas. E é preciso encontrar os remédios, por mais amargos que eles sejam.
(Rodrigo O. Fonseca).
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