Intensificação da ocupação estrangeira, diversos tipos de pressão política, jurídica e econômica, expulsão dos nativos e pobres do centro da cidade, todo tipo de constrangimento social para não haver contatos entre os dois lados da "fronteira".
Poderia ser um filme baseado em diferentes processos históricos, como a edificação do Estado de Israel, a Marcha para o Oeste na América do Norte, e até mesmo a chegada ao Rio da família real portuguesa. Mas é Drum, um belo registro cinematográfico da revista homônima que, na década de 1950, se pôs bravamente na luta contra o regime racista da África do Sul. Seu proprietário e diretor, o inglês Jim Bailey, radicado no país, branco, mas opositor declarado do apartheid, contou com o bravo repórter Henry Nxumalo, também conhecido como "Senhor Drum".
A revista Drum representou um grande acontecimento em meio ao ambiente esfumaçado do racismo colonial. Publicação de vanguarda, dirigida a um público crescente de leitores negros, sua redação era formada por um grupo de jovens intelectuais alijados dos jornais e revistas dos brancos, tanto pela sua cor quanto pelo interesse em abordar o cotidiano da maioria da população. Drum teve o mérito de abrir este espaço.
Ao mesmo tempo em que denunciava os absurdos do apartheid, mostrava a riqueza cultural dos negros, assim como a alegria boêmia das agitadas boates de Sophiatown. Na década de 50, chegava com força à África do Sul todos os expoentes da cultura dos EUA, e com ela, o jazz, o fox e a luta dos negros de lá por igualdade. Sophiatown era uma espécie de Harlem de Johannesburgo, onde os negros conseguiam escapar um pouco do cotidiano de opressão e humilhações. Nos seus bares, reuniam-se a nata dos intelectuais negros, mas também brancos não-racistas, na maioria estrangeiros, num exemplo de convivência pacífica e civilizada.
Henry Nxumalo (interpretado por Taye Diggs) denunciou, em grandes matérias de capa, a existência de trabalho escravo no interior do país, assim como a barbaridade do sistema prisional. Descobriu que muitos presos nem criminosos eram, tinham apenas ousado andar pelas ruas após 22h, saído de casa sem seus "passes" ou irritado algum policial por qualquer motivo banal.
Repórter investigativo, Henry sentia um estranho fascínio pela cultura dos gangsters de Sophiatown, como os "new yorkers", que disputavam violentamente os territórios com outros grupos. Acredita que eles "estão tentando ser alguém na vida", mas acaba sentindo na pele (e na carne...) as limitações destes grupos marginais, o quanto eles acabam, de uma forma ou de outra, servindo à dominação racista e colonial.
Nelson Mandela e seu partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), desde sempre quiseram distância dos gangsters, e o próprio Henry pergunta a um deles o por quê dessa matança toda entre irmãos. O diretor Zola Maseko, integrante do braço armado do CNA entre 1987 e 1990, presta uma bela homenagem à memória deste grande jornalista e lutador anti-racista, que, se sabia que as coisas não mudam da noite pro dia, sabia também que sem ações efetivas e exemplos para as novas gerações, nada muda.
Se a legalidade da segregação racial perdurou até 1994, não foi pela falta de lutadores e de resistência, mas devido ao aparato de poder que, entre outras coisas, impedia a população negra de produzir e divulgar livremente suas representações e identidades para o seu próprio povo. Quanto a isso, temos em Drum uma resposta, e um belo exemplo do promissor e já vitorioso cinema pós-apartheid da África do Sul. (Rodrigo O. Fonseca)
Você ainda pode conferir o filme em duas sessões:
| Terça 28/09/2004 |
Espaço Unibanco 3 |
16:00 hs |
UN330 |
| Quinta 30/09/2004 |
Est Barra Point 1 |
14:30 hs |
BP125 |
Para saber mais sobre o "Harlem sul-africano" assista o documentário Sophiatown: sobrevivendo ao Apartheid, que estréia na próxima quarta, 29, às 20h, no Espaço Unibanco 3.